segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sensualidade bem trabalhada ou apelo erótico explícito?

Antes de qualquer coisa, vale à pena diferenciar os dois termos. O erotismo está relacionado com aquilo que é explícito, desenvolvido e preciso, com intenção meramente exibicionista (falando de uma forma bem delicada). Por outro lado, a sensualidade não possui o condão de mostrar claramente, posto que é implícita, apenas deixa no ar um toque maroto, com uma certa malícia, dando ao expectador somente um vislumbre. Grosso modo: o erotismo apela para os sentidos conscientes, não permite margem a possíveis dúvidas; ao passo que a sensualidade encobre a vulgaridade disseminada no erotismo por velar e desvelar, tornando-se um contínuo por vir.


Na vida escolhemos com qual postura encararemos as coisas, se desenvolveremos nossa sensibilidade, procurando pelo delicado, ou se preferimos tudo em sua forma crua e sem meandros. Assim também é a dança. Claro que, uma arte talhada para o feminino como esta, será sempre visitada pelas qualidades inerentes às mulheres. Sensualidade, charme, encantamento, tudo faz parte de um pacote intrincado que mistura arte e vida.


O erótico é um adjetivo oriundo do amor, da sensualidade. É um aspecto do ser humano que vai muito além da forma explícita que algumas pessoas imprimem à dança. A sensualidade convida à fantasia, à expressão individual de cada um, e parece fazer parte dos talentos naturais das mulheres. O que fazer se elas nascem com este poder demasiado sutil e eficiente? Será que nascem assim ou são suavemente empurradas nesta direção desde a mais tenra idade? Afinal meninas aprendem condutas de comportamento (como se portar, falar, sentar-se, etc.) muito antes que os meninos. Aprendem também as formas de atração e repulsa, e enviam sinais quando necessitam dizer algo mais, sem sequer mover os lábios.


As meninas e mulheres que se interessam pela dança acabam por definir como seu público vai sentir a apresentação. Tudo está conectado. Se uma bailarina se comporta de forma vulgar, seja em seus movimentos ou por seu comportamento antes e depois do show, ela acaba delimitando a opção de seu público.


O velado é sempre mais interessante e sedutor do que a nudez total. Um presente carrega seu mistério enquanto sua embalagem não for violada. Ao abri-lo, imediatamente a aura que nos atraía se desfaz e a magia, que antes parecia palpável, desaparece.


Ao assistir uma bailarina a mesma conexão se estabelece. Dependendo da elegância de quem se apresenta, do refinamento de seus movimentos e de sua entrega artística, os olhos presentes a sentirão.


Vale a pena lembrar que existe também o outro lado da moeda. Assim como aquela que dança escolhe o modo com o qual direcionará sua performance, o público também tem liberdade de se manifestar internamente de forma livre. Portanto, alguém que erotize tudo o que está a sua volta, naturalmente fará o mesmo ao assistir a dança ou a um filme apelativo. A inclinação para o sutil ou para o superficial é arbitraria, cada um escolhe a sua.
 
Numa sociedade em que a mídia televisiva e impressa usa o corpo feminino para vender os mais variados produtos, estimulando, além do normal, a sexualidade de seu público, há uma tendência natural por parte da ala masculina em sexualizar todo o conteúdo disponível. No fundo a idéia das campanhas é obrigar, de forma subliminar, o interesse por um produto. Dentro das imagens e das correlações oferecidas pela música, cores e apelos, eles se sentem impelidos a consumir aquele produto. Imaginem isso em grande escala. Quantos não são influenciados de forma grandiosa por essa técnica de marketing em massa?


Assim, para alguém acostumado a ser alvo desse tipo de propaganda, aceitando de bom grado seus efeitos, o estímulo da visão de uma bailarina de dança do ventre vai direto ao ponto. No lugar de visualizar aquela mulher em toda a amplitude de sua atuação, vê somente um corpo ondulante, deixando as fantasias correrem soltas.


Homens não são animais no sentido pejorativo da palavra, apesar de muitos adorarem agir pelo instinto. O processo seletivo essencialmente mental que o homem possui, o leão não tem. No mundo animal as ações, em sua maioria, são ditadas por ordens naturais baseadas no instinto de sobrevivência e manutenção da espécie. Podemos ampliar nossa capacidade de absorção, escolher entre o belo e o grotesco, decidir o que queremos.


O ambiente também faz diferença. Dependendo de onde acontece a apresentação, a bailarina tem a sua disposição um ambiente propício para a boa absorção do que ela tem a mostrar. Sempre sugerimos critério na escolha do lugar. Um restaurante árabe, com ambientação típica e iluminação especial, sempre será muito melhor que uma casa de esfiha ou mesmo danceteria da moda, pois estas usarão a dança apenas como chamariz, não se ocupando em proporcionar nenhum cuidado especial.


Uma bela apresentação exige refinamento e boa qualidade técnica, além da sensibilidade necessária para tocar o coração e as mentes de quem nos assiste.


Uma dança apelativa e excessivamente provocante aguça os canais mais superficiais, trazendo o explícito e o grosseiro à tona. Isso pode estimular o pior tipo de propaganda para esta arte, que, antes de mais nada, deve ser tratada com respeito.


A boa dança está nos olhos de quem vê, refletindo a postura de quem a executa?

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